Mercado de Trabalho para Desenhistas de Humor

Mercado de Trabalho para Desenhistas de Humor

Na noite de terça-feira, dia 11 de fevereiro, tive o prazer de acompanhar a mesa redonda Mercado de Trabalho para Desenhistas de Quadrinhos e Ilustrações de Humor. O evento faz parte da exposição Cidade em Tiras, que ocorre no Sesc Santo André. A exposição acontece até o dia 9 de março e tem como objetivo mostrar como os artistas abordam a cidade de São Paulo em suas histórias, retratando a própria vida cotidiana da cidade através da ótica singular de diversos artistas.

No evento estiveram presentes grandes nomes da ilustração brasileira: JAL (presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil), Biratan Dantas (diretor da Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas de São Paulo) e Orlando Pedroso (SIB- Sociedade dos Ilustradores do Brasil).

Há exatos 145 anos era publicada a primeira história em quadrinhos do Brasil, de autoria de Angelo Agostini. De lá pra cá o mercado de quadrinhos evoluiu e sofreu mudanças significativas. Com as revistas e publicações impressas em crise os profissionais da ilustração migraram para áreas relacionadas como, por exemplo, propaganda e comunicação institucional. No entanto esse interesse das editoras pelas histórias em quadrinhos aumentou nos últimos anos dando espaço para publicações e selos editoriais com novos nomes da ilustração.

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Em um bate papo descontraído os artistas mostraram suas percepções sobre o mercado de trabalho para ilustradores e fizeram suas considerações.

 

Do fanzine para a internet

A palavra fanzine vem da contração da expressão em inglês fanatic magazine, que significa em português revista de fãs. Os fanzines são o retrato da paixão dos ilustradores pela arte, uma maneira de divulgar e capitalizar seus trabalhos de modo quase artesanal. “Reunia-se 2 ou 3 amigos, desenhavam, tiravam cópias e vendiam essas cópias por pequenas quantias”, lembra Jal.

Atualmente os fanzines ainda existem em proporções muito menores. Incentivados pelo avanço da tecnologia gráfica, o artista conta com uma qualidade melhor de impressão e com custos mais reduzidos, se comparado a um passado recente.

Ainda segundo Jal, os profissionais de hoje estão começando mais maduros e com um nível de trabalho muito bom. No entanto “A escola só ensina a desenhar…” Segundo ele, a visão e o ponto de vista do cartoon, que representa uma “segunda leitura da realidade” ainda são pouco trabalhados pelas instituições que se propõem a ensinar a profissão.

Com a evolução da internet a discussão sobre o canibalismo das mídias vem à tona. O medo acaba mexendo com a cabeça dos editores, que passam a enxergar a internet como um produto substituto para a mídia tradicional.

 

O mercado no exterior

Não existe referência maior em quadrinhos do que o Japão. No Japão são vendidos 5 milhões de exemplares por semana. Na contramão do pensamento burro de que uma mídia pode canibalizar outra, vemos que atualmente os quadrinhos japoneses têm a mesma força da televisão. “Airton Senna é idolatrado no Japão graças aos quadrinhos” ressalta Bira. O mais popular gibi do Japão transformou Senna em personagem muito antes do aparecimento do Senninha.

“Sempre vai existir espaço para conteúdo de qualidade. O Japão está no centro da tecnologia mundial e vende quadrinhos. Quem vende é o conteúdo independente da tecnologia”, enfatiza Bira.

 

Maurício de Sousa

Foi quase impossível ouvir uma frase completa sem que o nome do Maurício não  ganhasse destaque. “As obras do Maurício de Sousa são o Harry Potter Brasileiro”, compara Orlando Pedroso. Segundo eles, Maurício de Sousa responde hoje por 80% dos quadrinhos produzidos no Brasil. A visão singular do Maurício foi fundamental para o desenvolvimento e propagação da cultura dos HQ’s.

“Minha filha sempre leu quadrinhos desde pequena. Quando ela alcançou seus 12 anos começou a ler publicações editoriais para meninas mais velhas, pois os quadrinhos não falavam mais o que ela queria ouvir. A Turma da Mônica Jovem fez ela recuperar o amor pelos quadrinhos ocupando um lugar no mercado que estava vazio”, conta Bira.

“Eu apostei contra a Turma da Mônica Jovem, achei que seria um tiro n’água”, revela Orlando Pedroso.  Acontece que a visão do Maurício de Sousa, assim como de vários empreendedores está acima do entendimento convencional. “Maurício bateu o pé e pediu para aumentar a publicação, foi contra tudo e todos. Venderam 80 mil exemplares no primeiro dia”, conta Jal.

 

O mercado no Brasil

Jal é enfático ao dizer que a “acomodação de quem decide faz o mercado ser uma merda”. Em geral, o que acontece é que os editores não querem correr risco publicando artistas novos, independente da qualidade. Em alguns casos os artistas chegam a ceder o material gratuitamente por 1, ou 2, anos em troca de exposição. No entanto, mesmo assim, o editor não quer correr o risco de publicar um material desconhecido.

“Os materiais do exterior chegam aqui prontos e praticamente de graça. Garfield, por exemplo, veio praticamente sem custo algum, com plano de marketing e plano de negócios prontos. O quadrinho era praticamente um merchan para vender produtos da marca Garfield. Em pouco tempo a gente viu bichos de pelúcia, adesivos e produtos do Garfield espalhados por todos os cantos”.

Enquanto isso, novos artistas aqui no Brasil sofrem com a desconfiança dos editores. Existem casos de quadrinhos premiados que não tiveram o mínimo de investimento. “Sem a propaganda e divulgação mínima necessária, vi trabalhos premiados sendo queimados sem sair da terceira edição”, conta Bira.

Como sempre vemos um problema crônico inerente a muitas profissões no Brasil, onde pessoas com poder de decisão escolhem o caminho mais seguro com medo de investir em algo novo. Profissionais medíocres escondidos atrás de uma mesa bonita fantasiados com terno e gravata tentando esconder que vivem com medo. Medo do fracasso e medo, acreditem, do sucesso. Afinal, ninguém quer ter mais trabalho.

 

Conteúdo

Em contrapartida a esse tipo de profissional o interesse por conteúdo bom, com linguagem diferenciada cresce a cada dia. Quadrinhos de qualidade e inteligentes ajudam a crianças na alfabetização, auxiliam jovens a entender melhor questões do dia-a-dia e proporcionam aos adultos uma visão diferenciada do cotidiano. Sendo assim, será que não dá pra perceber que o investimento nessa área funciona? Existe um mercado inexplorado e com enorme potencial. Uma revista em quadrinhos tem em média quatro leitores por exemplar.

 

Mudança na cabeça dos profissionais

Outro problema do mercado é que muitas vezes os ilustradores enxergam os outros desenhistas como concorrentes de forma negativa, e ficam tentando “brigar” com desenhistas da mesma área ao invés de se unirem um busca de um objetivo comum. Exatamente por isso que o trabalho das associações é tão difícil. Talvez o primeiro passo para a valorização do mercado seja os profissionais entenderem que somente a partir das concorrência saudável é possível criar um mercado com várias opções de consumo, criando um público fiel que sustente os profissionais de qualidade. Exatamente aí está a importância dos prêmios. “Não importa quem ganha o prêmio. Prêmio é importante para o mercado como um todo. O Oscar, por exemplo, medidas as devidas proporções, é marketing, justamente para as pessoas saberem o que existe de melhor. Eu trocaria todos os meus prêmios por mercado de trabalho”, comenta Jal.

 

Um dedinho de prosa:

 

Daniel Moscardo:  Como a internet alterou o mercado para quem está começando na área?

Bira: Vou te dar o exemplo do Malvados. O Malvados começou a ser publicado no site e depois em uma página do Facebook. Depois de um ano as visualizações foram estrondosas e uma editora se interessou e comprou para publicar, fazendo a primeira edição. Agora o autor já criou uma nova série. Outro exemplo disso é Um Sábado Qualquer. Esses foram quadrinhos criados exclusivamente para internet. Isso não gera concorrência, pelo contrário. Quando um quadrinho desse faz sucesso, é impresso e os fãs compram o livro isso faz com que um público novo se interesse pelo estilo. Só a partir desse ciclo é possível criar um mercado realmente duradouro.

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Jal: A internet possibilitou novas formas de realização dos projetos. O Catarse, por exemplo, tem dado certo. Vários livros de quadrinhos têm sido viabilizados pelo Catarse. A internet como um todo é uma forma de gerar público e depois gerar mercado. Nós mesmos criamos um blog com alguns desenhistas palmeirenses . A diretoria do Palmeiras se interessou e fizemos uma exposição dentro do clube. Agora possivelmente sairá um livro dos 100 anos com os cartunistas. Tudo isso foi alavancado pela internet.

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Orlando: A internet acaba eliminando o intermediário. Isso é bom e é ruim. É bom porque dá pra conhecer trabalhos do mundo todo. Antes um talento do Nordeste, ou de qualquer estado, tinha que se deslocar, com a pastinha debaixo do braço e hoje não existe mais isso. Por outro lado você deixa de ter o filtro. Vasculhar a internet para saber o que é bom é uma tarefa árdua. Ao mesmo tempo em que existe muita coisa boa circulando perde-se um pouco um filtro na hora escolher o que é bom ou ruim.

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Daniel Moscardo: Com essa necessidade de gerar conteúdo de qualidade e ter essa visão diferenciada do cotidiano, quais características são importantes para quem está começando agora conseguir unir o trabalho em si com o desenvolvimento das competências necessárias para ser um bom profissional?

Orlando: Eu resumo em duas coisas: foco e curiosidade. Se você olhar anos atrás, o cara tinha que trabalhar em algum emprego, estudar a noite, muitas vezes era arrimo de família e por aí vai. Ou seja, a rotina da vida sempre acontece para te tirar do foco. Mesmo assim muitas pessoas faziam acontecer. O cara escrevia poesias de madrugada, o cara desenhava na madrugada, o cara fazia um roteiro de filme nos horários mais absurdos, morto de cansaço, no ônibus, etc. Hoje em dia o que a gente tem é uma distração monstruosa e isso acontece com qualquer um de nós. Você chega de manhã no estúdio ou em qualquer lugar, entra no Facebook pronto! Metade da manhã vai pro saco. É muito fácil você se distrair. Isso é um grande problema. Ou seja, se você não tiver disciplina, você não faz nada. Foco é fundamental, seja você um garoto ou um profissional rodado.

Ao mesmo tempo a curiosidade é fundamental. Enquanto você se mantiver curioso, você estará vendo coisas que te interessam e que podem agregar valor ao seu trabalho. Essa curiosidade faz com que você perceba onde estão as oportunidades.

 

Daniel Moscardo: Se alguém, que não fosse o Maurício de Sousa, criasse um produto como a Turma da Mônica Jovem e apresentasse para algum editor. Na opinião de vocês seria lançado um sucesso ou seria enterrado um sucesso?

Jal: Eu acho que seria enterrado. Por conta dessa pasmosidade dos editores. Maurício de Sousa já vem pronto. Ele é o sucesso. Para você convencer um editor, mesmo com melhor projeto do mundo é complicado. Vou citar um exemplo meu: no final dos anos 90 criamos uma turminha infantil. Essa turminha virou um jornalzinho e cada desenhista fazia seu próprio estilo. Isso que está sendo feito hoje, nós fazíamos naquela época. O Guia do Ilustradorresultado é que ganhamos o Prêmio Vladimir Herzog de direitos humanos. Tivemos uma boa distribuição e até patrocínio. Depois isso virou revista e um piloto para TV. Ou seja, era um projeto diferenciado, premiado e publicado que não conseguiu o investimento necessário. Você entra em contato com diversas pessoas, mas, quando muda alguma pessoa vem sempre o mesmo discurso “ah… esse projeto é do pessoal antigo”. Não dá pra você ficar escravo disso.

A última dica da noite, ficou por conta do Guia do Ilustrador. Um livro completo para quem pretende ingressar nesse mercado. O Guia do Ilustrador dá dicas desde a criação do portfólio até  valores de honorários. Quer saber mais? É de graça! É só clicar na imagem e baixar. O excelente trabalho é de Ricardo Antunes.

 

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