Entendendo a importância do contexto na educação – por Estevam Moscardo

Entendendo a importância do contexto na educação – por Estevam Moscardo

Olá para todos. No meu primeiro post eu falei um pouco sobre incerteza e interesse. Foi quase um desabafo, um protesto. Dessa vez, ainda falando sobre o interesse, quero falar de uma forma mais pratica e aplicável, apresentar uma ferramenta. Vou falar sobre o uso do contexto para gerar o interesse, porque é o contexto que torna os fatos interessantes.

Vamos tomar como exemplo um assunto aleatório: você provavelmente já ouviu falar de pombos correios. São pombos treinados para entregar mensagens e eram a forma de comunicação mais rápida que existia antes da invenção do telégrafo. Pode ser que você não tenha interesse neste assunto. Pode ser que você até tenha raiva de pombos e não queira ler sobre eles. Porém, se eu te disser que, em pleno século 20, um pombo chamado Cher Ami [Querido Amigo], última esperança de um pelotão francês encurralado entre o exército inimigo e o fogo de artilharia do próprio exército francês, voou sobre as fileiras inimigas, sobre fogo intenso, foi gravemente ferido e quase morto, e levou uma mensagem que salvou a vida de 191 soldados franceses da morte certa durante a Primeira Guerra Mundial (o que lhe rendeu uma medalha) talvez você se interesse pelo assunto. Talvez você até busque saber como esses pássaros são treinados e por que cargas-d ’água eles sempre voltam para casa. Vai lá, procure Cher Ami na Wikipedia…

SMemo_07

A verdade é que os pombos voam para casa independente de quem esteja tentando matá-los nas trincheiras abaixo. Assim como os pombos, nós humanos temos nossas excentricidades. Uma das nossas é que nos interessarmos menos pelos fatos e mais pelos contextos em que eles acontecem. Então, se seu cérebro precisa de um contexto para aprender, não negue isso a ele.
A falta de contexto pode ser uma das explicações para o frequente fracasso da relação professor-aluno. Se o aluno desvia a atenção dos “tipos de clima e vegetação do Brasil” que estão sendo explicados pelo professor e se dedica ao celular, isso acontece porque todo o contexto das relações sociais do WhatsApp é mais interessante que a possível extinção de uma espécie de árvore explicada para alguém que sequer convive com árvores. Nessas horas o mais inteligente seria contextualizar o assunto e, o mais importante, contextualiza-lo de uma forma que ele se identifique com o contexto do aluno, esse senso de identidade entre dois contextos gera uma reação em cadeia: simpatia, interesse, desenvolvimento e busca. Busca por tudo que se relacione ao tema inicial, busca por conhecimento.

Claro que além do que se tenta ensinar sem contexto tem também o que é ensinado com um contexto não compatível. Eu posso falar que para pregar um prego em uma tábua é necessário erguer o martelo (A) à altura do ombro, depois aplicar força no cabo para que a energia cinética resultante da massa da cabeça de metal aliada à velocidade do deslocamento gere um impacto na cabeça do prego (B), tirando este do estado de repouso para que desenvolva uma trajetória linear deformando a madeira. Com certeza não é a melhor forma de ensinar como usar martelo e prego, mas comumente é a forma que se ensina matemática e física, apenas estabelecendo relações entre “A” e “B”.

mARTELO

Entenda, este não é um texto sobre matemática, mas vou usá-la como exemplo. Assim como a maioria das pessoas sabe pra que serve um martelo, elas também sabem para quê servem uma infinidade de outras coisas que podem ser definidas matematicamente. O que elas não sabem é como relacionar a matemática a essas coisas, e o contrário também é verdadeiro. Mesmo assim insiste-se em ensinar matemática usando como contexto a própria matemática e não o contexto das coisas que ela é capaz de criar. Por isso apenas a minoria que consegue estabelecer essa relação contextual por si mesma acaba gostando da coisa.

A melhor abordagem (mais inclusiva) seria: “que problema real determinado cientista estava tentando resolver quando chegou à conclusão deste determinado conceito que estamos estudando?”, posteriormente: “como outro cientista usou este mesmo conceito para resolver outro problema que parecia não ter relação com o primeiro problema”.

Infelizmente essa abordagem só é feita por quem estuda (ou quem ensina) história da matemática e da física em cursos de nível superior. A história da matemática e da física foi considerada trivial demais para constar na grade do ensino fundamental. Aliás, a própria disciplina de História estudada durante todos os anos é a grande “contextualizadora” de todas as outras disciplinas, afinal a história transforma e é transformada pela sapiência humana em todas as áreas do conhecimento. Porém foi reduzida a mais uma matéria da área de humanas que só interessa a quem pretende cursar ciências sociais, ou áreas correlatas.

Revolta à parte, em síntese temos: para um bom entendimento teremos que recorrer ao contexto da criatura para entender o criador. Em outros momentos teremos que levar em conta o contexto do criador para explicar a criatura.

SMemo_02

Por fim, o contexto tem mais um truque na manga: ele nos ajuda a superar preconceitos, seja de qual tipo for. Você deve ter reparado nas ilustrações deste post, são toscas, parece coisa de Clipart do MSPowerPoint. Mas se eu te disser que fui eu mesmo que as desenhei especialmente para este post usando um celular com caneta touch, utilizando o máximo das minhas capacidades artísticas, talvez você se sinta mais simpático. Está aí o contexto, te ajudando a entender as coisas.
Se você for tentar provar para um músico clássico que o Punk é algo tão digno de nota quanto a música erudita, é melhor apresentar o contexto completo: o Punk como revolução cultural que influenciou a moda, a literatura, o design, o cinema e toda uma geração que passou a pensar diferente. Se a conversa se concentrar apenas na gritante discrepância melódica entre os dois estilos com certeza ele nunca vai te entender.
Bom pessoal fica a dica desta ferramenta importante para quem quer aprender e para quem quer ensinar, pra quem quer debater, entender ou pra quem quer só impressionar também, às vezes é útil! O assunto continua nos comentários, dê a sua opinião, valeu!

6 Respostas

  1. Daniela Mello
    | Responder

    Estevam, Parabéns pelo texto, formidável e inspirador! O seu texto causa a “ericção da inteligência”, como diria Rubem Alves. Sou educadora, o tema me atrai desde sempre, e nesse momento estou estruturando uma oficina sobre elaboração de questões contextualizadas para professores: que sorte a minha ter encontrado o seu texto!

  2. re.jeff
    | Responder

    Cher Ami Mosqueteiro,
    eu diria que você contextualizou muito bem seu post! das ist interessant, sehr interessant!
    :-)

  3. Matheus Reinert
    | Responder

    Parabéns pelo post, está sensacional! Adorei o conteúdo dele e acho que ele pode ser aplicado em várias ocasiões. A abordagem do pombo-correio foi espetacular! Ansioso para ler o próximo

  4. Zilda
    | Responder

    O fato de não sermos “especialista” em determinada área não constitui obstáculo à chamada a reflexão. Você se posicionou como um educador e dos bons. Continue com
    sua visão jovem e atual. Acredito que a educação vive um momento em que não só os
    educadores mas também os educandos precisam pensá-la.
    Dentre tantas coisas que aprendi com o seu post, algo acendeu uma luz dentro de mim: O Ami, usou seu treinamento, se feriu, quase morreu, e, cumpriu sua missão, atingiu seu objetivo.
    Os mais poéticos comparam a função de educador a uma missão. Os céticos odeiam essa comparação.
    Acredito que o educador é um formador, ou ainda mais, um transformador de opiniões,
    ele escolheu ser isso, foi treinado para isso, se dedicou a isso e quando se vê num “campo de batalha” em que a escola se transformou, se não deserta, fica só a pensar na aposentadoria.
    O Ami não podia pensar mas seu instinto o guiou para aquilo em foi treinado.
    O que será do futuro de nossa sociedade se a realidade falar mais alto do que o “ardor” de ser um educador?
    O Ami foi tão importante naquela situação em que acabou sendo condecorado, como
    está sendo hoje, agora. Se o Ami conseguiu, eu também vou conseguir. Continuarei sendo professor.
    Abraços

  5. Estevam Moscardo
    | Responder

    Nathália, nem precisava de tantos elogios, só cair nas suas graças filosóficas já é um prêmio pra mim, já que nunca consegui te convencer de nada rsrs!

  6. Estevam Moscardo
    | Responder

    Exatamente, pena que você é um hamster muito difícil de se lidar!

Deixe uma resposta