Não tem certeza? Ótimo! – por Estevam Moscardo

Não tem certeza? Ótimo! – por Estevam Moscardo

postado em: Amplie-se | 13

O objetivo deste primeiro post é me apresentar e falar um pouco sobre as coisas que vocês verão aqui no futuro, mas como eu não sei falar “um pouco” vamos começar desde o princípio:

Eu não sei no que você acredita sobre a origem da Terra e da mais notável espécie que aqui habita, nós humanos. Pra falar a verdade não posso dizer nem que você acredita que nós sejamos a “mais notável espécie” a vagar por esse planeta. Você pode dizer que somos o resultado da evolução de um ser menos desenvolvido ou a criação de uma mente superior – só pra citar as duas ideias mais populares – mas, independente da sua crença me parece que desde que as pessoas começaram a se sentir acomodadas no estado de homo sapiens sapiens  ou desde que começamos a encarar o nosso estado atual evolutivo, tecnológico e cultural como um direito de nascença irrevogável e isento de responsabilidades e não uma conquista, começamos a trilhar a rota da involução (ou “desevolução”, pra usar uma palavra que não existe, mas é muito mais explicativa). Essa “desevolução” está acontecendo no ramo do pensamento e do conhecimento e duas das principais causas deste declínio é a abolição do interesse e da incerteza.

Você já percebeu como a maioria das pessoas tem tanta certeza das coisas hoje em dia? E como elas têm tão pouco interesse sobre o que as outras pessoas fazem ou pensam? Já reparou como para algumas pessoas é quase vergonhoso ter dúvida ou não ter uma opinião formada sobre determinado assunto? O próprio tema sobre a criação do universo é abordado sem sombra de dúvida por qualquer frequentador da internet, e por aí vai: pessoas que nunca leram o Alcorão dizendo que o Islã prega sobre violência, pessoas que nunca leram a Bíblia falando que o Cristianismo é uma bela estratégia de enriquecimento ilícito e pessoas que nunca pararam para ouvir um bom Jazz juram que é musica de aristocrata (particularmente, das três é a que mais me dói). Eu poderia citar outros tantos conceitos ignorantes que dariam um livro e eu já estou de saco farto de ouvir, acreditem a ignorância humana é prodigiosa. Não seria o interesse e a incerteza (ou o interesse pela incerteza), que nos trouxe das cavernas até aqui?

Vejamos: Sobre a Gravidade, Aristóteles dizia que cada objeto preferia estar em determinado local especifico em relação ao centro da Terra, para isso subiam ou desciam para atingir seu ponto de conforto. Parece uma ideia absurda hoje, mas era mais uma de nossas certezas até que sir Isaac Newton forjou sua famosa ideia da gravitação universal que diz que os corpos se atraem de acordo com sua massa, isso deu tranquilidade à humanidade para mais uma vez seguir convicta das suas certezas.

Anos depois (muitos) o não satisfeito Albert Einstein mostrou que o efeito da gravidade acontece por uma deformação do espaço e do tempo. Hoje os físicos concordam que as ideias de Newton e Einstein são apenas modelos para descrever um fenômeno que pode não funcionar exatamente desta forma. Sábia decisão da ciência.

Com essa ideia em mente, permitam que eu me apresente: meu nome é Estevam e eu sou um engenheiro que passou a vida inteira falando que ia ser arqueólogo.

Vejam só: arqueologia não dá dinheiro e na hora de escolher uma profissão a automação industrial me pareceu a opção mais parecida com Lego que eu encontrei. Deveria ter tomado a pílula azul!

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Mas este é um assunto recente, muito antes disso deixei a imaginação rolar solta com o Lego por anos longuissimamente curtos, aprendi a idealizar enredos complexos brincando com os comandos em ação e assistindo Steven Spielberg, fui membro do grupo de ninjas do Prof. Daniel Moscardo . Adquiri um interesse por assuntos diversos lendo a enciclopédia CONHECER que (não sei se era só lá em casa) era encadernada sem o menor critério de relação entre os assuntos dos fascículos: começava com insetos e ia até bomba atômica passando por tribos encolhedoras de cabeça e ferrovias, tudo isso com uma pitada de dinossauros.

Quando comecei a ir à escola fui um bom aluno em todas as matérias até que me explicaram que o conhecimento humano era dividido entre humanas e exatas e que eu não podia pertencer aos dois lados, quanta bobagem! Escolhi a matemática e a física já que eu gostava de história. Descobri que a matemática é um tipo de poesia simplista capaz de prever o futuro.

Seguindo minha carreira de contradições estudei música a contragosto, e muitos anos depois de ter largado o estudo me apaixonei por ela, voltei a fazer aulas para aprender a tocar Rock e casei com o Jazz. Na escola eu era nerd mas sempre tive amizade com os caras mais “descolados”, que acabaram amigos dos nerds depois. Quando conheci sistemas econômicos e políticos não comprei o peixe de ninguém, tudo isso me parecia bom e ruim ao mesmo tempo, como são as pessoas que os compõe.

Percebi que a certeza era uma porta fechada, foi quando me tornei um filósofo em cima do muro. Na esfera profissional constatei que muitas pessoas vivem em um mundo onde um engenheiro não pode escrever bem, um profissional de marketing não pode dominar a matemática, interesse é coisa de pretencioso, economia não é assunto pra pião e onde pessoas se ressentem por ter mais conhecimento técnico que seus superiores mesmo sem ter metade do conhecimento administrativo deles, essas pessoas saem das faculdades repetindo incessantemente o que ouviram ao longo dos anos sem a menor reflexão sobre o significado do que estão falando, até a mesmo a famosa frase atribuída ao filósofo Socrates “tudo que sei é que nada sei…” já virou um jargão sem significado na boca destas pessoas. O mundo destas pessoas é o mundo do fracasso.

Depois de tudo isso tive momentos de frustração quando me convenci de que me interessava por tantos assuntos mas não me destacava em nenhum deles. Era nerd demais para ser malandro, era descolado demais para ser um nerd, os filmes que eu tanto gosto não eram cult o suficiente para que eu fosse um cinéfilo, não sou tão bom músico para segurar uma Jam, cientista demais para a religião, a falta de enquadramento em um grupo faz milagres para a sua baixa auto estima. Porém, com um pouco de reflexão percebi que esse repertório me deu salvo conduto para transitar entre as “tribos” sem parecer uma ameaça, promover o diálogo e trocar ideias, meu objeto de estudo se tornou a mente humana, me encontrei com Deus e com Darwin na mesma mesa de jantar.

Hoje, se posso estar convicto de algo, é de que as incertezas são portas abertas, oportunidades de refinar nossos conceitos, você não precisa “ficar em cima do muro” igual eu falei, mas não deixe que suas convicções limitem sua percepção da realidade. Tudo é interessante e têm uma utilidade porque a diversidade de conhecimentos, no mínimo, nos permite atingir as pessoas e demonstrar interesse gera interesse e facilita o debate. Essa, por si só, não é uma habilidade desejável? Fora isso, cada conhecimento é uma ferramenta dentro da sua caixa de ferramentas, e você não vai querer resolver todos os seus problemas só com o martelo, vai?

13 Respostas

  1. […] para todos. No meu primeiro post eu falei um pouco sobre incerteza e interesse. Foi quase um desabafo, um protesto. Dessa vez, ainda falando sobre o interesse, quero falar de uma […]

  2. Estevam Moscardo
    | Responder

    Obrigado por comentar Agueda. Acho que no fundo todos sofremos das mesmas necessidades, só que elas estão maquiadas pela percepção que cada um tem do mundo e de si próprio, um dia ainda vão inventar um drive universal e vamos poder nos comunicar rsrsrs…

  3. Estevam Moscardo
    | Responder

    Falando assim parece ridículo, mas a gente realmente se sente um alienígena as vezes. Muitas vezes somos rotulados até de insatisfeitos, fracassados, inconstantes ou descomprometidos mas acho que enxergamos o mundo como um buffet de self service à preço fixo, e queremos colocar um pouquinho de tudo no nosso prato e depois voltar para apreciar só o que gostamos mais rsrsr.. [Acho que essa foi a pior analogia da história]

  4. Estevam Moscardo
    | Responder

    Valeu Klaibert. Vou aproveitar e agradecer a visita dos professores em geral, vocês que vão levar esta e outras discussões adiante! Acho que todo mundo aqui já teve um professor que fez a diferença na vida e muitas vezes só precisamos ter conhecido UM pra salvar nossas mentes da perdição.

  5. Estevam Moscardo
    | Responder

    Quando o líder dos ninjas fala é porque ficou bom mesmos!

  6. Zilda Maria Moscardo da Costa
    | Responder

    Que satisfação ler seu texto!
    Não tem nada mais chato do que lidar com pessoas donas da verdade, e que verdade?
    O que é a verdade? Nem mesmo elas sabem. Saem repetindo o que ouviram sem um
    mínimo de reflexão crítica.
    Bom mesmo, é lidar com esses “sábios” que possuem tantas incertezas, tantas dúvidas,
    tantos questionamentos, que ao término de uma boa conversa, nos orgulhamos de sermos seres tão excepcionais e tão geniais ao mesmo tempo. Pena que a maioria desconhece tudo isso.

    • Estevam Moscardo
      | Responder

      Comentário de mãe vale, Arnaldo? Pra quem não conhece, essa é a minha mãe, responsável pela veia filosófica da família. Acorda cedo todo dia para lecionar Filosofia para a juventude desinteressada. As vezes pode parecer que está “jogando pérolas aos porcos”, mas como eu disse anteriormente, encontrar UM bom professor é o suficiente para mudar uma vida, você ainda vai colher esse fruto!

  7. José Passarela
    | Responder

    Ótimo texto!!!
    Sem dúvida, a incerteza é grande motivadora na busca do conhecimento. Nada é certo, tudo é relativo; e somente o conhecimento, associado às nossas experiências de vida, vão nos permitir encontrar a verdadeira sabedoria na espiral da evolução.

    • Estevam Moscardo
      | Responder

      Valeu Passarela! A palavra evolução tem muitas conotações e as vezes as pessoas ficam temerosas e descrentes só de ouvi-la, mudar isso talvez seja o primeiro obstáculo!

  8. Ricardo Lima
    | Responder

    Direto ao ponto! Ouvir alguém dizer “não sei” hoje em dia é mais raro que nota de R$1,00.
    Ótima estréia.
    Grande abraço.

    • Estevam Moscardo
      | Responder

      Valeu Ricardo. O “não sei” sempre desarma o interlocutor e o permite ponderar sobre suas ideias, é pena que muitos não compreendam isso.

  9. Gabriela dos Santos
    | Responder

    Adorei o texto Estevam!
    Parabéns! “)

    • Estevam Moscardo
      | Responder

      Valeu Gabi, e obrigado pela divulgação!

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